"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

25.5.10

Adverso

Querido, eu te fiz mal? Eu te fiz... Eu te fiz... Eu te fiz em mim. E agora você? E agora eu? Agora eu não me sou. Não sou eu. Não eu. Eu me renego. Não, não sinto nada. O que será digno do meu merecimento? Qual destino? Qual balada? Qual morte? De ti eu me fiz e te fiz em mim. E nós dois fomos dois juntos. Mas os outros não poderiam suportar e não ficaram quietos. Vieram. Levaram o que eu/você guardamos com tanto carinho, o que olhávamos por horas sem medo e sem tristeza. E tudo de muito bonito eles transformaram em lixo. Não. Não deixei de ser você. Mas como agora não sou nada para mim, você também não é. Não sou. Não é. texto . Matheus Matheus, Sem Palavras 24 imagem . Oscar Wilde e Alfred Douglas

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5.4.10

Little Voice

Uma voz pequenina mas limpa mas afinada mas afiada. Um cantar particular pra contrabalançar a mudez e o autismo quotidianos. Uma canção torta, mas nunca morta, corta feito faca a carne de vocês. Viver é vinil, viver é incêndio. imagem . Laura, A Voz de Uma Estrela, de Mark Herman, Inglaterra, 1998 texto . Matheus Matheus com citação de A Palo Seco, de Belchior

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8.3.10

Corisco e Dadá

Corisco rodava... e rodava... e rodava... Qual cabeça de homem tonto com uma faca na mão. Ele degolava por prazer cada cabeça barbada de homem feito. Terminados os varões, partiu para as mulheres. Terminadas as mulheres, partiu para as crianças. Ele tinha sede. De sangue. Mas Dadá, que também era sofrida, dura, nem boba nem nada, e mulher, talvez por algum instinto maternal, defendeu as crianças, que correram quase livres pro campo. Foi quando, para aplacar a fúria de seu macho ainda todo coberto de sangue, acariciando aquela sua face rústica e empoeirada, que ela o fez - sangrar branco por entre as pernas.
imagem 1 . Corisco e Dadá
imagem 2 . Corisco e Dadá, de Rosenberg Cariry, Brazil, 1996
texto . matheus matheus

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30.8.09

O Suicídio

Control?

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18.6.09

Uma Juventude como Nenhuma Outra

De cortar o coração. De cortar de frio. Um chapéu, uma bomba, uma explosão, duas garotas numa motocicleta. Um rapaz que socorreu uma delas, pelo qual se apaixounou, mas que não se lembra mais dela. A revista, a prisão, a pressão. Nas ruas, nos ônibus, no quartel: fronteiras imaginárias. Mãe ao telefone, preocupada; macho ressonante na cama. Festa de despedida, mecha ruiva, festival rock. De cortar o coração. De cortar de frio.
imagem . Karov La Bayt, de Vardit Bilu e Dalia Hagar, Israel, 2005 texto . Matheus Matheus

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12.2.09

Pegando Fogo

"Não estamos sob o mesmo teto, mas estamos sob o mesmo céu."
Profundas e curtas reflexões via mensagem de texto. O desejo incontrolável que é como uma catarse catastrófica se propagando e sufocando quem ama e quem está ao seu redor, mesmo sem ser amado. Que nem fogo. Com o diabo no corpo.

imagem . Ça Brûle, de Claire Simon, França, 2006

texto (exceto entre aspas) . matheus matheus

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6.1.09

Azulescuroquasenegro

Impossível deixar de ser o que se é, apesar das pressões. Impossível não absorver um pouco das pressões - esforçar-se para não deixar-se bloquear por elas. Impossível tornar-se algo que não se é. Eu tenho que impôr àquilo que está ao meu redor o que sou? "Traduzir uma parte noutra, que é uma questão de vida ou morte." Senão o meio me engole e abafa meu infinito. Eu tenho que dar conta de lidar com isto com muita calma. Do contrário, piro de vez. Não pirar de vez. "Bactéria num meio é cultura."
imagem . Azuloescurocasinegro, de Daniel Sánchez Arévalo, Espanha, 2006
texto . Matheus Matheus, com citação de Traduzir-se de Ferreira Gullar e Cultura de Arnaldo Antunes

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30.6.08

A Lei do Desejo

Não olhe para trás. De bruços. Não dispa-se completamente. Toque-se levemente. Continue até contorcer-se. Desejo é amBÍguo e contraditório. Mela. Às vezes dá a luz, às vezes tira a vida. Amor difícil de nascer, quando nasce, é duro de morrer. É duro. Muito duro. Duríssimo. Ne me quitte pas. Tudo termina em fogo. O altar se incendiando como a ardência que inflama o peito dos amantes. Chama de vida & de morte.

imagens . La ley del Deseo, de Pedro Almodovar, Espanha, 1987
texto . Matheus Matheus

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20.3.08

Madame Satã

Eu tenho uma raiva dentro da minha pessoa que não me permite que me venha a calma. Uma raiva que não tem fim e muito menos explicação. Se não estiver satisfeito com meus tratos, evapora! Nasci foi pra ter vida de malandro. E vou le´vá-la é rasgada. Sou filho de Iansã e Ogum e devoto de Josephine Baker. A vida é melhor quando a gente canta, rebola, se sacode e rodopia. E se eu perder o meu amor assassinado de forma brutal... E se eu perdê-lo... Continuarei nadando com largas braçadas contra o mar revolto. E, ainda molhado de água salgada, ofegante e estirado na areia, receberei a água da chuva.
imagens . Madame Satã, de Karim Ainouz, Brasil, 2002 texto . Matheus Matheus, construído a partir de imagens editadas de Madam Satan, de Cecil B. de Mille e da postura da pessoa incorporada por Lázaro Ramos

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7.12.07

ATÉ JÁ!

Meu amor, meu amor, até já. Até já até breve ou até já nunca mais. Até mais. Até jamais. Até quando eu lhe encontrar de novo se eu lhe reencontrar. E, se até o fim, não lhe encontrar? Continuarei a procurar e procurar e procurar. Sim. Vou lhe encontrar sempre. Vou lhe encontrar na memória. A memória do teu calor, do teu corpo rijo pesando sobre o meu corpo delicado e embevecido. Mas sim. Mas sempre. Mas... o sentido. Não posso esquecer do sentido e nem desprezá-lo. Embora no ápice do meu prazer ou no apogeu da minha dor eu nem me lembre de compreender direito coisa nenhuma. Só sentir. Como as folhas da árvore sentem o vento ou sentem o fogo e fazem barulho. Não existe gozo ou consternação sinceros em silêncio. No delírio da minha memória: você, meu amor. Até, amor. Já. Essa busca continua. Contínua. Nem o desencanto encerra. Nem o desengano enterra. Nem o sabor acridoce da mais óbvia "desilusão - danço eu, dança você..." Minhas mãos agora vazias encheram-se da mais nobre virtude quando ampararam a tua nuca - seu bucólico arfar morno no meu ombro. Fugimos, achando que, embora a viagem não fosse totalmente segura, nos salvaríamos. Achávamos também que teria beleza por estarmos um ao lado do outro. Não desconfíamos que nos perderíamos. O que mais dói é não saber se nos perdemos ou se você fugiu de mim. Desde o momento que você foi embora tudo ganhou uma cor tão estranha, tornou-se cada vez mais real. Enquanto éramos só nós dois, amantes constantes na cama, tudo era mais elegante. Como um filme francês produzido no século XXI em Preto & Branco. Agora enxergo as cores, comédia romântica blockbuster ultra-colorida. Mas falta alguém. Falta o par. Então é drama... melodrama... Até quando? Até já. O par voltará apenas na memória? Cruel então faltar o par. Até então. Até já então. Sonho inverso: foi primeiro realidade para só depois ir para o campo da memória em que repousam os desejos não realizados. Mas se realizou? Não por completo. Havia mais para se realizar. Muito mais. Fica na memória a lembrança com asas que enche o rosto de água salgada.

imagem . A Tout de Suite, de Benoit Jacquot, França, 2004

texto . Matheus Matheus

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5.10.07

DOLLS

Saíram em peregrinação voluntária. Bonecos soltos no mundo sem função definida. Ele ao lado d'ela. Ela ao lado d'ele. Unidos por um forte elo. Elo que envolvia o corpo d'ela. Elo que envolvia o corpo d'ele. Elo que, arrastando no chão, ia varrendo tudo que se entrepusesse à caminhada d'eles e à eles. Um não olhava para o lado, para o outro. Rostos inexpressivos cheios da dor e cheios da alegria que todos têm, mas sem denunciar nada na feição. Revelando o que quem vê deseja e imagina ver revelado. Seus rostos iam endurecendo como estátuas. Olhos sempre fitos no horizonte. Sempre haveria horizonte, mesmo quando o chão lhes faltasse. Lenta e ininterruptamente caminhavam. Para frente e sem parar.
texto . matheus matheus
imagem . Dolls, de Takeshi Kitano, Japão, 2000

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13.4.07

machuca

"Os culpados sempre são os mesmos. Como tem que ser. E ninguém se culpará por perpetuar esta história. Eu só me pergunto quando vão fazer as coisas de outra maneira? Quando vão se atrever a fazer algo diferente?"
Texto & Imagem . Machuca, de Andrés Wood,
Chile/Espanha, 2004

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19.9.06

Lua e Cereja

Não basta apenas escrever sobre o que se acha. É preciso viver antes e escrever depois, se possível logo após, ainda sentindo o calor do que se acabou de experimentar. É preciso viver ao escrever, não se escreve sem estar-se vivo. Escrever o que se vive? Viver o que se escreve? Escrever para viver ou viver para escrever? Também é possível tentar escrever em meio ao grande caos, quando a coisa sobre o que se quer escrever está acontecendo. Mas isto pode ser muito confuso e até um tanto quanto enlouquecedor. As letras podem sair tão tremidas que depois nem serão decifradas. Mas certamente terão o calor do momento - não apenas letras frias sendo lidas num monitor. Quantas coisas perdemos enquanto escrevemos? Quanto deixamos de escrever enquanto não estamos escrevendo? Vivendo - vivenciando, experimentando, passando a limpo, cortando palavras, riscando frases, propondo outras palavras (como, por exemplo, escreviver. De quem é esta pérola? ESCREVIVER). O que é escrito sem vida não é lido. Também não é lido o que choca demais (vanguardista) como censas explícitas de cópula ou de ultraviolência já muito censuradas, muitas mesmo antes de irem para a tela, neste meu braZil varonil. Meu país é o país de Glauber: - Quanto custou Terra em Transe? Custou o preço do cinema brasileiro. Voltando ao cult-pink-indie-dark japonês... As coisas e as pessoas existiriam apenas para servirem de cobaias analisadas minuciosa e friamente pelos escritores? Quantos amigos os escritores perdem ao transformarem pessoas reais em personagens? Principalmente quando o foco inspirador não se identifica com a maneira que ele foi impresso na obra... Porque as pessoas sempre esperam um auto-retrato muito fiel à imagem que têm de si mesmas. Mas o que interessa ao escritor é sempre a maneira como ele sentiu ou a forma como ele que expor/subverter esta experiência - geralmente a forma que o artista acha mais belo... cada olhar um olhar. Nem todos os escritores são fotógrafos registrando um momento instantâneo, abanando a foto para ela secar. Alguns escritores não a esperam secar, borram a realidade e a jogam no papel ou na tela com crueza - em Teorema, de Pier Paolo Pasolini, a lata de tinta arremessada, vidros quebrados num contraponto à vida aos pedaços dos personagens. A grande homenagem que um escritor pode prestar à humanidade e às coisas é escrever sobre algo. Mesmo que escreva negativamente sobre esse algo, de certa forma é um tributo que este artista oferece para que o resto do mundo saiba que essa coisa o deixou embevecido ou contrariado; ou simplesmente para que o resto do mundo saiba que essa coisa existe e que ele a experimentou de algum modo. Incorpora ou distorce. Tem a liberdade de forjar um mundo mais belo ou mais louco. Abordar a probabilidade de outros finais felizes, não descartar a possibilidade de um filme sem final. Da forma que apenas o artista enxergou algo num ambiente que provavelmente tinha dezenas de outras pessoas que viram cada uma de sua forma a mesma cena. O grande crime é que o escritor conta a sua maneira enquanto os demais fazem dela um segredo. E contando, o escritor também impõe seu ponto de vista sem fazer muita questão de um direito de resposta de quem for ler. Bom é ter cuidado para que indo por essas linhas intermináveis ninguém se ofenda ou se machuque sendo usado para mais uma tese comportamental. texto . matheus matheus imagem . Lua e Cereja (Tsuki to Cherry, de Yuki Tanada, Japão, 2004)

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20.8.06

sonhos

As imagens que Kurosawa filmou são pinturas em movimento. Inundando os olhos que observam maravilhados a tela antes em branco. Extrema beleza, leveza que vem do oriente com muita profundidade. O que espera o menino depois do arco-íris? Perigo que se descortinará. O território desconhecido atrai porque nele coisas inesperadas se revelam e coisas convencionais tornam-se extraordinárias se expondo por um ângulo antes nunca percebido. O arco-íris é um portal entre a realidade de estar acordado e a realidade de estar sonhando. O que acontece a quem se aventurar a ultrapassar o marco proibido? Dor e terror? Sim. Mas também sabedoria. A sabedoria que se adquire através das intempéries e dos contratempos. A dor vista não como penitência, castigo, punição ou fardo a ser carregado, mas sim como parte integrante deste caminho pelo qual precisa-se passar. A dor como uma flor no meio de tantas outras. Flores que ainda não se abriram, flores abertas em plenitude, flores murchas. E as flores que virão - ainda não nasceram. Encantadora é a dança da natureza a entregar os frutos maduros para que a humanidade se deslumbre e se sacie. Sincronidade ímpar, harmonia múltipla. É preciso que esta mesma humanidade se reconheça como parte da natureza se mostrando grata, preservando. Algo tão simples que a cultura oriental assimilou tão bem há tanto tempo - cultivar as coisas boas, deixar as ruins de lado... mas não sem antes conhecê-las bem. Algo tão simples que o povo ocidental, com sua avidez de progresso, ideologias, contra-ideologias, máquinas, bombas nucleares e fumaça (muita fumaça!) não faz questão de enxergar. Sonhos de guerra são pesadelos saídos de um escuro túnel (outro portal), marchando tenebrosamente e cobrando uma ordem a ser obedecida - como não sabem viver sem o governo de um superior, continuam esperando que alguém lhes aponte o que precisa ser feito sem perceberem que o tempo não é mais disso. "A guerra já passou. Vocês já passaram. Volver!" Outroas pesadelos de gelo. Uma situação tensa: discutir pelo destino do grupo, para que esse grupo não se extinga por completo, porque perdido ele já está. Esperando uma salvação que pode vir mais fácil do que a esperança. É simples agora mas pode chegar o momento em que será tarde demais.

Enquanto isto, o barulho que o moinho faz contra a água vai nos tranquilizando. Um senhor de quase um século faz o exercício das pequenas coisas à beira do rio. O que ele tem a dizer é muito maior que toda essa parafernália modernosa alardeando novidades mercadológicas, econômicas, sistemáticas. O que este velhinho diz não é secular, o que ele diz é milenar - vem muito antes dessa civilização cinza em que vivemos. Escuta...

Kurosawa convidou Martin Scorcesse para interpretar Van Gogh, e recriou as pinturas deste último com uma fidelidade assombrosa. Juntando sonhos coloridos à sonhos desbotados, manifestou com delicadeza e severidade a sua opinião sobre o passado, o presente e o futuro de seus espectadores. Conseguiu criar fábulas contundentes reunidas neste filme ilimitadamente lindo e eterno - enquanto puder ser visto.

imagens . Akira Kurosawa's Dreams, Japão, 1990

texto . matheus só

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9.8.06

os sonhadores

Sonhar acordado é uma loucura tomando conta da alma duma pessoa de tal forma que essa pessoa não consegue ao menos fingir não sonhar. Os sonhos vão surgindo e desfilando diante dos olhos como a grossa e azulada fumaça sobe pelo ar. Quem prefere conversar iluminado pelas chamas de velas? Quem não gosta de televisão e só assiste à filmes quando vai ao cinema? Olhos fixos na superfície colorida da tela de projeção - no mínimo duas cores. O breu da sala à luz de velas. O breu da sala à luz da tela. Coisas pouco convencionais acontecem em ambientes de iluminação irregular. Sonhos bons, sonhos maus. Com intensidade. Os olhos cheios de brilho do sonhador param perdidos a olhar os sonhos se criando, se formando na perplexidade mágica do devaneio. O sonhador é meio aéreo, fora do ar. Para o sonhador o sonho basta e sua realização não é tão bela como quando o sonho só morava dentro da mente. Não há correntes que prendam quem sonha. Quando o algoz sorri tranquilo por pensar tê-lo capturado, no sonhador se desvencilha num reles truque infantil de ilusão óptica - porque as correntes dos leigos não conseguem manter cativos os pensamentos sonambulando. O que é desvairado num sonhador é o desejo, bicho bruto e sem rédea - pulsando vermelho. O que passar pela cabeça tem antes de ter batido no coração. A inquietude de contrariar o estabelecido adormecido: o calculável - a sobriedade, a moral e o interdito: dito entre linhas. Sonhadores podem se alienados mas não são tranquilos. São inquietos. A revolução? A revolução está acontecendo lá fora - mas, enquanto dormimos depois do gozo lascivo, alguma pedra pode atingir nossa paz até então perfeita e quebrar nossa janela, certo? Non, rien de rien. Non, je ne regrette rien. E o preço da interrupção deste sono de rogozijo pode ser a integração total à Causa. Os corpos se entregando ao fogo e aos gritos ao ar livre. Este sacrifício teria sido provocado por alguma sala escura? Quem vai saber... Catar os sonhos no ar até lá. Inclusive sonhos alheios que os outros não têm a coragem de sonhar. Não têm a coragem sequer de admitir. É por esse motivo que nem se lembram dos próprios sonhos - aos não-sonhadores (os esquecidos) só resta o gosto mau na boca quando acordam. E ainda zombam dos que têm coragem de sonhar e de contar seus sonhos estranhos. Estranhos? Não existem sonhos estranhos mas sim existem pessoas estranhas que não sonham. Muito perigoso e muito bonito é quando um sonhador tromba com outros sonhadores e, juntos entre si e isolados do resto do mundo, confabulam um exclusivo intercâmbio de beleza. texto . matheus só aos sonhadores em geral, espectadores dos sonhos que criaram ou simplesmente dos sonhos que acham belos.

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8.4.06

a vertigem

Mas nossa vida é assim como uma fábula anormal que fosse adaptada para um moderno e estarrecedor longa metragem kubrickiano. Cheia dos imprevistos do acaso amigo - imprevistos desastrosos com ar de tragédia acompanhados de doudas gargalhadas. O sol como holofote ofuscando a vista, fazendo brotar gotas de suor na testa. A lua a nossa delicada e elegante luminária. E caminhamos desastrados por essa estrada generosa ao nos entregar beleza, incondicional ao nos oferecer terror. Distraímo-nos por esses caminhos tortuosos. Enfrentamo-nos como se fosse um lazer. São esse ambientes mais difíceis, corrosivos, cenários grandiosos de cor sinistra e gritante que nos dão o gosto do assombro, da ventura e do prazer. texto . matheus só sobre . ana imagem . laranja mecânica de stanley kubrick

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5.4.06

ELAEU

Sim. Começo com um sim porque já é uma aceitação: estou entendendo algo a minha moda.
Olhando o horizonte com aquele semblante ingênuo de estar perdido mas com certa amargura. Aquela amargura de conhecer bem, já de muitos carnavais, traços doces e modos corrosivos. Um pouco estabanado e ao mesmo tempo com gestos calculados, repetidos diversas vezes com escrúpulos. Me recordo desde que o conheci. Sempre vários gestos.
Carregando aquela expressão cheia. De rosa pouco depois de passar de botão à rosa e pouco antes de desfalecer. Conservando aquele ar de dignidade: olhar ao longe vendo além - ultrapassando objetos parece ultrapassar o sentido.
Como sempre impondo um cigarro em seu palco (Esta cena tão peculiar de seu dia-a-dia.) Misturando o glamour de diva ao ar enigmático e pesado de velha cigana em cores definhadas, melancólicas, exibindo toda a vivacidade gasta - porém bem pulsante. Cigana velhaca, cheia dos macetes, escondendo as cinzas sob sob sob sob sob o tapete.
- É a minha vida! - dizia. Esplanando com as mãos no ar. Ar de poeta. Ar de imperador. De certo um bruxo tomando a vida dos que o cercam: uma vez em ti já não o mesmo. Toca com a ponta dos dedos o jardim, a selva inalcançável a olhos comuns, mas com rosto de mármore lhe bate a face com suas gélidas lâminas. Quem nunca sentiu esse veneno mórbido e desumano?
Mas quem imaginaria um amigo desvelado trancando os seus embustes a sete chaves? Menino de natureza difícil. Viajando em seres desconhecidos e intocáveis em seus universos. Qual essência? Qual poder? Homem indomável solto sobre infinitos campos verdejantes a voar. Ultrapassando cercas e muros. Criando cercas e muros.
Eis aí, como em tudo, o tudo que não enxergo. O que não explico. Não se pode pôr em forma alguma. É muito expansiva e livre. Mesmo preso a tudo me escapa o que os olhos vêem, o que o coração sente. Vejo algo, longe na escuridão. Brilha como molécula e parece dançar. Destaca-se na escura solidão sua luz glamourosa. Veja!... Não se pode tocar. Homogênio? Heterogênio? Gênio? Não tem molde. Parece brincar. Não se sabe ao certo. E fico aqui. Nessa distante contemplação.
este texto rebuscado não fui eu quem escrevi. a autora é uma grande amiga minha que escreve horrores de beleza embora pareça não acreditar muito em suas letras. como ela não quer mídia em torno dela pediu que eu não a identificasse, por isso citarei apenas seu primeiro nome que é bem comum: ANA. Esse texto ela fez para mim, o que me deixou muito muito muito orgulhoso. nem eu sabia que tinha tanto glamour. resolvi postar para que as pessoas tenham uma visão de mim feita por uma pessoa muito próxima e querida. eu adorei, principalmente a parte da cigana velhaca. pois é: sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher.

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3.4.06

EU

Estou para mim como estou para o resto do mundo: perplexo. As coisas que procuro estão nos lugares em que as coloquei. As pessoas que conheço estão espalhadas numa estrada. As coisas e as pessoas são as coisas e as pessoas. Exteriores. Eu recebo o que nelas encontro. Me identifico, me contrario, me descubro. O amor me visita. O prazer me visita. Envelhecerei e terei a pele mais gasta pelo tempo. Os outros continuarão a me cobrar um nome e um perfil e números, continuarão a me assaltar, a me encontrar, a me perder. Maior que tudo isso é o meu templo que tranco e não dou a chave a ninguém: EU além dos meus sapatos sujos e furados.

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26.1.06

um dia, um ladrão

Chega como quem vai pedir informação e levanta a blusa para que eu note o 38 no alforge improvisado. Diz "Vai andando normalmente, passa o que tiver." Um movimento brusco, um sinal de medo ou preconceito pode resultar num disparo. A partir do momento que obedeço deixo de ser vítima e me torno cumplice. E me torno porque ele é tão humano quanto eu: dorme, come, ama, chora, mija, goza, tem carne, cabelos, dentes, vai apodrecer quando morrer, nasceu nu e chorando, se aborrece, se entorpece, depois fica de cara. Enfim, somos humanos. Enquanto ele me leva para um canto escuro, tento mostrar-lhe que sou quase tão pobre quanto ele (proletário), que só tenho livros dentro da bolsa, que não trago dinheiro ou celular. Experimenta a blusa quente que comprei num brechó há pouco tempo e me devolve. Não curtiu a lã azul. Não leva nada, não me olha nos olhos e diz que é pra eu seguir em paz, que sou humilde. Aperto-lhe a mão e sigo entre a perplexidade e a surpresa, cheio de incertezas a respeito do peso das coisas, pensando sobre o mundo do qual fui repentinamente retirado (pelo susto do assalto) e para o qual irei logo logo (até desaparecermos no horizonte de um para o outro). Em breve ele se torna apenas memória de ladrão - como Genet e Hood são memórias de ladrões. Como a visão mais sincera do Deus deve ser: um furto de graça. texto . matheus só título (citação) e texto (alusão) . john ulhoa

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