"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

20.12.11

Viver a Vida



"Acho que somos sempre responsáveis por nossas ações. Somos livres. Eu levanto minha mão, eu sou responsável. Eu viro minha cabeça, eu sou responsável. Estou infeliz, eu sou responsável. Eu fumo, eu sou responsável. Fecho meus olhos, eu sou responsável. Esqueço que sou responsável, mas eu sou. Eu disse pra você, não tem como escapar. Tudo é bom. Você tem somente que fazer coisas interessantes. Depois de tudo, as coisas são como elas são. Uma mensagem é uma mensagem. Pratos são pratos. Homens são homens. E a vida é a vida."

Texto . Vivre Sa Vie, de Jean-Luc Godard, França, 1962

Marcadores:

10.3.11

Micmacs - Um Sonho Complicado


E você se vê no meio d'uma loucura real total. Guilhotina emperrada. Dormir na rua. Se virar de qualquer forma, um dia de cada vez. Fábula do underground. Nem tudo é matemático, pois há subterrâneos. Um compasso no olho. Uma orquestra tocando no fundo d'uma escadaria qualquer. Uma coisa na cabeça que pode ser de seu interesse. Uma bala como recuerdo não fatal. Tudo reciclado, tudo reciclável. É sonoplastia tosca mas causa impacto. Alienígena que não precisa mais sair da França, com efeito.

imagem . Micmacs à tire-larigot, de Jean-Pierre Jeunet, França, 2009
texto reciclado . Matheus Matheus

Marcadores:

10.2.10

O Desprezo


Se minha presença trouxer desgosto, minhas letras brutas no plano sempre cumprirão seu papel: desvelar extremo bom gosto. Eis-me aqui, então, como sempre deveria ter sido. Eremita do segundo andar em diante, para cima. Em silêncio, escrevendo, envolvido pela quietude cheia de movimento e sombra do claroescuro da noite de concreto. Vezenquando me apresento meio amargo, bem sei, não nego. Radicalista das sutilezas mais remotas que sou, me resguardo no direito de só delatar o meu mel na solidão. O meu veneno destilo a quem quiser beber. Depois caio, flácido que sou, inesperadamente. Mas minhas quedas não dizem respeito a ninguém que não seja eu mesmo. Escrevo por elegância e desprezo, aquele mesmo da Bardot, do Godard, do Truffaut - o melhor amor possível de haver em mim.


texto . Poema em Prosa da Madruga, de Matheus Matheus
imagens . Jean-Luc Godard, Brigitte Bardot e Michell Piccoli no set de filmagem de Le Mépris, de Jean-Luc Godard, França/Itália, 1963

Marcadores:

29.1.09

Acossado



Eu existo só porque eu existo ou eu tenho alguma finalidade maior? Eu sou algo além de passar os meus dedos indicadores todos, com força, em meus lábios? Galar o galã, anti-herói e protagonista-coadjuvante quase em traje de gala. Galar com volúpia. Um flerte. Quase elegante. Quase galante. Quase a rigor. Disfarçar um flerte? Em voz alta: New York Tribune! New York Tribune! Quem grita em meio aos passantes é sonhador. Tenta seduzir. Seduzir quem? Seduzir alguém? Alguém que esteja do outro lado da câmera. Belo mundo. Tudo é um caos. Tudo é caos. Numa primeira impressão... Já numa segunda visita ao cinema tudo se torna mais claro e menos sincero. Então... os filmes só são realmente apresentados por inteiro quando vistos pela primeira vez! Ficam em nossa memória meio remotos, como sonhos mal acabados. Meio lembrados. Depois já se sabe o final. O crime é o próprio castigo? Eu não sei de tudo. Tudo é caos. Esgota-se como quem vai dormir a noite depois de um dia fatigante.... Eu nunca consegui direito. Para mim, as noites é que são fatigantes. A menos que eu esteja no escuro iluminado pela tela! Então é isto? Só vivo realmente observando a ficção de dentro de uma sala de cinema? Para quê a gente vive? Eu vivo de observação? Só isto? E a prática? Que fique com as pessoas que me lerem... É uma postura muito cômoda a minha, não é mesmo? Me ouvirão os que me lerem? Minha voz ecoará nos corações destes? Pelo quê a gente morre? De tanto viver? Eu quero isto... viver demais! Não quero muita grana, não quero fama. O momento de ter prazer talvez seja a forma mais eficiente/fugaz de me aproximar do ideal da liberdade plena. O sufoco de brincar debaixo dos lençóis, o sufoco de acender um cigarro na guimba de outro cigarro que quase se acabou de fumar, o fogo do outro continua neste - um cigarrão a la Genet, só para a rima não ficar pobre -, o sufoco da perseguição final, até quase não aguentar, até que se caia na rua. As caretas finais - fascínio, espanto, descontentamento. As caretas finais ensaiadas durante a vida até quase à exaustão. Os meus dedos sobre os meus lábios grossos - aprendi olhando muito uma foto de um astro do cinema. Alegria extrema, perseguição implacável, desfecho quase inevitável. C'est fini?



imagem . À Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard, França, 1960
texto . matheus matheus

Marcadores: ,

7.11.08

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Antes era o som
Menino inocente aprendendo a ser bonito com o silêncio
Época distante essa:
Livros eram mágicos
Indústrias eram novidade
E nada, nada mesmo!, era mais completo que o som gutural e delicado do francês

Pra que descascar batatas
Ou afinar instrumentos?
Um mundo perfeito nos oferece batatas que pulam nas bocas e sanfonas que cantam sozinhas!
Limpa é a terra molhada, depois da chuva
A alma transborda em Montmartre
Inteira e desengonçada, a poesia invade cada miocárdio
Não existem pedaços de poesia

imagem . Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet, França, 2001
fonte da imagem . www.ocaradalocadora.com.br
acróstico nefelibata . Ana F.
outro texto nefelibata sobre um fabuloso destino em www.palavrassorteadas.zip.net

Marcadores:

17.4.08

Coração iluminado

"As pessoas deveriam poder mudar tudo o que não gostam."
"Sonhei com você. Sonhei que você estava sonhando comigo."
imagens e fotos . Corazon Iluminado, de Hector Babenco, Argentina / Brasil / França, 1998

Marcadores: , ,

7.3.08

Maria Antonieta

Como não ser superficial com tantas coisas finas e lindas ao redor, quando todos à volta parecem ter sido criados para servir? Como buscar um aprofundamento na vida e adquirir uma certa densidade? Sofrendo? Deitando na relva e experimentando como é grande e bonita a natureza? Dando prazer aos outros? A um? A dois? A mais? A quantos? Nem me chamaram pra orgia? O pop é pop: Maria Antonieta usava all star e escutava pós-punk quando ambos ainda nem existiam! Nada mais vanguardista... O amanhecer, meio que de ressaca, do Fellini sempre existiu. Este é eterno - a vida é doce.

"Ah! O diadema! Sou a rainha! Flamejo como coroa alta que sou. Os reis me usam em forma de capuz papal triangular. As princezinhas enfeitam com delicados diademos o rostinho fresco, inocente, mas capaz de crueldade. Maria Antonieta coroada e linda, meses antes de ter a cabeça decepada e rolada no chão da rua, disse alto e cantante: se o povo não tem pão porque não come bolo? E a resposta foi: allons enfants de la patrie, le jour de glorie est arrivé. O povo devorou o que pôde e comeu jóias e comeu lixo e gargalhou. Enquanto isso o rosto branquíssimo de Maria Antonieta mostrava silêncio de pérola na cabeça sem cabelos e sem pescoço."


imagem . Marie Antoinette, de Sofia Coppola, EUA/França/Japão, 2006

texto l . Matheus Matheus

texto 2 . Clarice Lispector


visite o site! http://www.sonypictures.com/homevideo/marieantoinette/index.html

Marcadores:

7.12.07

ATÉ JÁ!

Meu amor, meu amor, até já. Até já até breve ou até já nunca mais. Até mais. Até jamais. Até quando eu lhe encontrar de novo se eu lhe reencontrar. E, se até o fim, não lhe encontrar? Continuarei a procurar e procurar e procurar. Sim. Vou lhe encontrar sempre. Vou lhe encontrar na memória. A memória do teu calor, do teu corpo rijo pesando sobre o meu corpo delicado e embevecido. Mas sim. Mas sempre. Mas... o sentido. Não posso esquecer do sentido e nem desprezá-lo. Embora no ápice do meu prazer ou no apogeu da minha dor eu nem me lembre de compreender direito coisa nenhuma. Só sentir. Como as folhas da árvore sentem o vento ou sentem o fogo e fazem barulho. Não existe gozo ou consternação sinceros em silêncio. No delírio da minha memória: você, meu amor. Até, amor. Já. Essa busca continua. Contínua. Nem o desencanto encerra. Nem o desengano enterra. Nem o sabor acridoce da mais óbvia "desilusão - danço eu, dança você..." Minhas mãos agora vazias encheram-se da mais nobre virtude quando ampararam a tua nuca - seu bucólico arfar morno no meu ombro. Fugimos, achando que, embora a viagem não fosse totalmente segura, nos salvaríamos. Achávamos também que teria beleza por estarmos um ao lado do outro. Não desconfíamos que nos perderíamos. O que mais dói é não saber se nos perdemos ou se você fugiu de mim. Desde o momento que você foi embora tudo ganhou uma cor tão estranha, tornou-se cada vez mais real. Enquanto éramos só nós dois, amantes constantes na cama, tudo era mais elegante. Como um filme francês produzido no século XXI em Preto & Branco. Agora enxergo as cores, comédia romântica blockbuster ultra-colorida. Mas falta alguém. Falta o par. Então é drama... melodrama... Até quando? Até já. O par voltará apenas na memória? Cruel então faltar o par. Até então. Até já então. Sonho inverso: foi primeiro realidade para só depois ir para o campo da memória em que repousam os desejos não realizados. Mas se realizou? Não por completo. Havia mais para se realizar. Muito mais. Fica na memória a lembrança com asas que enche o rosto de água salgada.

imagem . A Tout de Suite, de Benoit Jacquot, França, 2004

texto . Matheus Matheus

Marcadores: , ,

5.2.07

irreversível



"LES TEMPS DETRUIT TOUT"



frase & imagem . Irréversible, de Gaspar Noé, França, 2002

Marcadores: ,