"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

5.10.09

Caótica Ana

Um ato poético Para minha amiga pássara. Passará despercebido?
Gostará? Sei lá... Nem sei eu se gostei.
Mas é um filme com seu nome! Tem que ver - Ou não tem que nada.
Falcão de estimação Pousado na mão. Como é seu o seu aniversário.
Fábula agridoce de fomento ao distúrbio e à revolta. Várias vidas dentro d'uma só.. Invenções...
de mente. A mente Mente!
Fábula acridoce: Auto poético Petição.
texto . Matheus Matheus para Ana F., com citações de imagens do filme e alusão à Meu Aniversário de Nando Reis.
imagem . Caótica Ana, de Julio Medem, Espanha, 2007

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29.1.09

Acossado



Eu existo só porque eu existo ou eu tenho alguma finalidade maior? Eu sou algo além de passar os meus dedos indicadores todos, com força, em meus lábios? Galar o galã, anti-herói e protagonista-coadjuvante quase em traje de gala. Galar com volúpia. Um flerte. Quase elegante. Quase galante. Quase a rigor. Disfarçar um flerte? Em voz alta: New York Tribune! New York Tribune! Quem grita em meio aos passantes é sonhador. Tenta seduzir. Seduzir quem? Seduzir alguém? Alguém que esteja do outro lado da câmera. Belo mundo. Tudo é um caos. Tudo é caos. Numa primeira impressão... Já numa segunda visita ao cinema tudo se torna mais claro e menos sincero. Então... os filmes só são realmente apresentados por inteiro quando vistos pela primeira vez! Ficam em nossa memória meio remotos, como sonhos mal acabados. Meio lembrados. Depois já se sabe o final. O crime é o próprio castigo? Eu não sei de tudo. Tudo é caos. Esgota-se como quem vai dormir a noite depois de um dia fatigante.... Eu nunca consegui direito. Para mim, as noites é que são fatigantes. A menos que eu esteja no escuro iluminado pela tela! Então é isto? Só vivo realmente observando a ficção de dentro de uma sala de cinema? Para quê a gente vive? Eu vivo de observação? Só isto? E a prática? Que fique com as pessoas que me lerem... É uma postura muito cômoda a minha, não é mesmo? Me ouvirão os que me lerem? Minha voz ecoará nos corações destes? Pelo quê a gente morre? De tanto viver? Eu quero isto... viver demais! Não quero muita grana, não quero fama. O momento de ter prazer talvez seja a forma mais eficiente/fugaz de me aproximar do ideal da liberdade plena. O sufoco de brincar debaixo dos lençóis, o sufoco de acender um cigarro na guimba de outro cigarro que quase se acabou de fumar, o fogo do outro continua neste - um cigarrão a la Genet, só para a rima não ficar pobre -, o sufoco da perseguição final, até quase não aguentar, até que se caia na rua. As caretas finais - fascínio, espanto, descontentamento. As caretas finais ensaiadas durante a vida até quase à exaustão. Os meus dedos sobre os meus lábios grossos - aprendi olhando muito uma foto de um astro do cinema. Alegria extrema, perseguição implacável, desfecho quase inevitável. C'est fini?



imagem . À Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard, França, 1960
texto . matheus matheus

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20.3.08

Madame Satã

Eu tenho uma raiva dentro da minha pessoa que não me permite que me venha a calma. Uma raiva que não tem fim e muito menos explicação. Se não estiver satisfeito com meus tratos, evapora! Nasci foi pra ter vida de malandro. E vou le´vá-la é rasgada. Sou filho de Iansã e Ogum e devoto de Josephine Baker. A vida é melhor quando a gente canta, rebola, se sacode e rodopia. E se eu perder o meu amor assassinado de forma brutal... E se eu perdê-lo... Continuarei nadando com largas braçadas contra o mar revolto. E, ainda molhado de água salgada, ofegante e estirado na areia, receberei a água da chuva.
imagens . Madame Satã, de Karim Ainouz, Brasil, 2002 texto . Matheus Matheus, construído a partir de imagens editadas de Madam Satan, de Cecil B. de Mille e da postura da pessoa incorporada por Lázaro Ramos

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11.2.08

DECAMERON

I
O verdadeiro contato espiritual é interagir harmonicamente com os elementos vivos deste mundo. Porque, se eu tenho um corpo de carne, é através dele que devo experimentar o mais fundo e profundo de ser. Se estou vivo no mundo de coisas concretas, se tenho sangue correndo nas veias, não será pela abstração que atingirei a verdade. Transcenderei, sim. Mas vai ser pelo desejo que arde em minha carne.
II
Antes era só pelo prazer. Depois veio o vício. Nudez! Queremos ver a carne! Queremos usar a carne! Queremos carne fresca de sangue jovem! Nudez para quem se choca, nudez para quem se excita. Sem roupas chegamos a este mundo - e chorando. Este é o nosso estado natural - como os animais que têm pêlos para proteger a pele. A nudez também é da vista, não só do corpo. Enxergar cheio de brilho e, vez ou outra, escoar lágrimas. Contemplar a olho nu a beleza e o calor da carne desmitificada. Qual milagre improvisado. Para quê realizar uma obra de arte? É tão mais belo sonhá-la do que criá-la. Milagre! Milagre!
imagem . Decameron, de Pier Paolo Pasolini, baseado na obra de Giovani Boccaccio, Itália, 1971

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10.10.06

ladrões de bicicleta

I Meu filho, eu sempre estarei ao teu lado. Junto de ti, sorrindo ou chorando, contemplando teu riso, escutando teu choro. Sempre ao teu lado. A minha mão maior e áspera de adulto unida a tua mão pequena e macia de criança. O mais importante é acreditar na Beleza. O mundo tem muito de belo, de extremamente belo, que de tão grandiosas estas maravilhas às vezes até nos horrorizam um pouco. Para encontrá-las é só não dar muita atenção ao que não der êxtase à vista. E estar atento à metamorfose inerente à própria condição de viver: tudo o que está vivo muda. Algumas coisas à primeira vista se apresentam a nós como horríveis, amedrontadoras, tenebrosas... mas depois se revelam preciosas e, quem sabe, pode até ser que se tornem belas diante dos olhos mais atentos aos milagres minuciosos. Agora é como se você estivesse no alto de uma longa escada e eu estivesse no início dela. Deverei então subir esta escada para alcança-lo. Subirei quantos degraus forem necessários para estar ao teu lado lhe ajudando a descer a escada degrau a degrau, e depois lhe ensinando a subí-la. Amparar-lhe com minhas mãos quando seus passos vacilarem e o risco da queda for iminente. Até que você consiga andar sem precisar de vigília constante e eu possa me orgulhar dos seus passos, que jamais deixarão de ser a continuidade dos meus passos. Importante é não deixar que uma eventual vasta tristeza invada o espaço das pequenas alegrias. É justamente por ser raro o banquete da felicidade que devemos degusta-lo ao máximo – mesmo que seja um banquete modesto.Meu filho, não se esqueça então: eu sempre estarei ao teu lado. Mesmo que eu não esteja presente fisicamente, estarei em pensamento. Mesmo que eu vá para longe, mesmo que eu morra e não exista vida após a morte. Sempre estarei ao teu lado –e você também junto a mim como um pedaço de mim. Sempre.
II Enfrentar as filas imensas da concorrência. Avesso aos azares dessa vida devastada por uma batalha vã – toda a guerra é vã. Quando a Grande Guerra termina as pequenas guerras continuam: juros e mais juros... Taxas abusivas nas costas de quem não tem quase nada e vai barganhando o pouco que tem em troca do estritamente necessário: um instrumento de trabalho. E se este instrumento de trabalho for furtado no primeiro dia de admissão? O que resta ao infeliz do trabalhador? Correr atrás do prejuízo. Fazer a denúncia aos polícias não vale de nada. Num tempo de mais miseráveis do que empregados facilmente surgem ladrões. São tantos roubos, mais roubos até do que aquisições. E tamanha burocracia... As subvenções não servem de nada para quem não tem algo para oferecer. Sabe como é: uma propinazinha... Procurar então por conta própria. O sonho desmontado. Todas as peças parecem iguais umas as outras. Mas havia um código que particularizava as peças – mas o código foi transformado ou raspado – subvertido. Olhos inocentes já com fundas olheiras. Meu filho não se lembra da guerra, a não ser por parcos flashbacks do terror que os adultos sentiram e do barulho (que numa guerra é onipresente), como quem tem um pesadelo e depois o esquece – mas sabe que teve o pesadelo. Mas o bambino pode ver as ruínas. Ainda é pequeno mas já experimenta essa indecisão desesperada de tempos difíceis: ninguém entende nada direito, tão injustos e absurdos os fatos se apresentam. Antes tudo era mais bonito e tinha mais cor. Agora são sobras e cinzas, sombras cinza que os que conseguiram sobreviver absorvem – gratos, até, pois é a única coisa que lhes resta. E para quê uma guerra? Para quê? Por dinheiro? Por poder? Para que uma Nação triunfe sobre a outra? Não. Nada disso. Uma guerra é para os poderosos se divertirem com a desgraça do proletariado como um moleque que mal saiu das fraldas se diverte jogando água ou tocando fogo num formigueiro. E se o ladrão aparecer. “Cumprimentem o ladrão. Cumprimentem o ladrão. Mas eu não. Mas eu não.” E se o ladrão for mais que um ladrão – se não passar de mais um pobre coitado que passou por tudo aquilo pelo qual você agora está passando e cansou-se de dar com a cara na parede, de lhe fecharem a porta na cara, de dar murro em ponta de faca... e passou para o outro lado: a margem, o marginal. O que fazer então? Perdoar o ladrão? Tornar-se um ladrão? Roubar, mas não pelo prazer de roubar como pregava Jean Genet, mas por pura falta de outra opção, por necessidade. Ou insistir na honestidade para continuar levando surra e ser acusado de calúnia? Um pobre desgraçado a mais que vai por estes caminhos tortuosos. Enfrentando o perigo constante de render-se e afogar-se. Mas não. Nadar. Nadar. Afinal, é preciso pensar na cria. E as videntes? O que dizer das videntes? Mais tarde veremos o caso de Macabéa, coitada, pobre, nordestina, iludida e maltratada de quase todas as formas possíveis que sua vida ingrata lhe concedeu. Mais tarde... Agora, melhor não dar atenção às videntes, principalmente as que cobram para proferir suas visões. Elas sempre dizem coisas que estamos cansados de saber. Talvez elas realmente busquem essas coisas no fundo de nossos olhos e as digam com aquela teatralidade macabra e sedutora. Porém, é mais necessário que nós mesmos aprendamos a buscar essas respostas dentro de nós, que nós aprendamos a fazer perguntas e que nos conformemos com o fato de que algumas não têm mesmo respostas – as perguntas mais importantes – e que outras respostas somente o tempo dará. É essencial que saibamos ler nossas próprias mãos para darmos nossos próprios passos. De qualquer forma, se dermos créditos aos místicos capitalistas, que têm preço para revelar suas profecias, é bom não esquecer de pagá-los. Todo domingo chove. A meteorologia sempre a errar. Todo domingo chove. E quem não tem guarda chuva se molha inteiro. A água a entrar pelos sapatos furados de solas muito gastas, ao ponto de sentir a dureza do chão como se os pés estivessem descalços. As calçadas escorregadias a propiciar tombos homéricos. “Mas se a chuva é de Nosso Senhor Jesus Cristo é bem vinda. Benditos sejam Seus desejos tanto áridos quanto úmidos.”
III “Pra que semear quando o solo não é fértil.”
Texto I . matheus só, para meu filho Vinicius Texto II . matheus só com citação de Hail to the Thief do Radiohead Texto III . pergunta sem resposta proposta no filme Imagem.Ladri di Biciclette, de Vittorio de Sica, Itália, l948

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23.9.06

Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera!

Amar demais e cometer crimes em nome deste amor. Desejar tanto. Tanto. Esses golpes violentos ferindo a carne que antes ardia de desejo. Volúpia e medo. Ou só medo? Tanto sentimento dentro do teu corpo largo e quente. Tanto azul... Tanto rosa... E no fim das contas tudo se converte em escuridão. Homem, em qual estação te reconheces? Me diz como é a pedra amarrada ao teu coração que te comprime a ponto de te fazer sangrar. texto. matheus só imagem.Bom Yeorum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom, Coréia do Sul, 2003, 103 min., dir: Kim Ki-Duk, com: Oh Yeong-Su, Kim Ki-Duk, Kim Young-Mim, Seo Jae-Kyeong, Ha Yeo-Jin, Kim Jong-Ho, Kim Jung-Young

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21.9.06

o clube da felicidade e da sorte

as heranças véu de dores véu de delícias meio sorriso meio medo meio coragem cai e sem som se ergue frágil mesmo só o fino o coração rugas nas mãos aquecendo o mundo bravio amor materno é terno alívio a dor muda respeita a tradição mais ódio nunca será bom amor amor retrabalho serena batalha persistente o corpo delicado não fraqueja diante da invasão os cabelos finos não se embaraçam no olho do furacão os olhos oblíquos não se cerram assistindo à violência vem carícia vem melancolia e depois se vão tristeza é ocaso destino tratado beleza dura até mesmo essas lágrimas secarão no peito trancafiados uns segredos mesmo forte chora em silêncio se queima e cora há ventura se rebela à revelia da repressão ninguém rouba o que não sabe que existe sem fugir resiste não revela a não ser para o eu de dentro a força é menina bailarina por um fio gira com graça delicada dança segura vacilante em torno de si mesma espalhando serenidade ao redor texto . matheus só imagem . The Joy Luck Club, de Wayne Wang, EUA, 1993

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