"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

31.3.12

Estamos Juntos


Das unhas e dos cabelos que cortamos com frequência e assiduidade sistemáticas, mas que não pararão de crescer enquanto estivermos vivos. Dos amigos e dos amores imaginários, e também dos reais. Das coisas que tentamos esconder mas que cedo ou tarde se revelam mais fortes do que nossa dissimulação. Das coisas que quase sempre não são da maneira que gostariamos. Das coisas que deveriam ter acontecido e mentimos que aconteceram. Do choro que, precedido de chilique, nos causa o álcool. Do risco e da glória do erro e do anonimato. Do egoísmo sagrado. Da inabilidade dos seres próximos de estarem sensíveis ao que está acontecendo. Do que está acontecendo e do que acontecerá. "Não há mais ninguém próximo." Da agressividade inerente à doença. Da importancia de continuar atuando em alguma atividade saudável. Da certeza de estar sozinha no mundo. Do cheiro da inveja. Dos cheiros todos, até dos que vêm do cérebro. Da comunidade que merece mais respeito e precisa se organizar para melhorar. Levante e lute. Proteja-se e projete-se. Estamos juntos. Estamos todos bem. Beijos para todos da torcida a favor e também aos do-contra. Nunca fomos tão felizes. A pessoa é para o que nasce. Do fim, que virá para todos, sem exceções, independente do trajeto que escolherem percorrer.

imagem . Estamos Juntos, de Toni Venturi, Brazil, 2011
texto . Matheus Matheus

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25.12.11

Estamira


"Natal é tudo o que nasce."

imagem & frase . Estamira, de Marcos Prado, Brazil, 2006

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23.3.10

O Cheiro do Ralo

"A vida é dura. De todas as coisas que eu tive as que mais me valeram, as que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar, são as coisas que não estão ao alcance das mãos, são as coisas que não fazem parte do mundo da matéria. A vida é dura."
texto & imagem . O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, Brazil, 2007

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24.11.09

Hotel Atlântico

Você é um desocupado. Você não passa de um desocupado. Um desocupado. É você! Filho da puta sem mãe é você. Tá vendo este tremor nas minhas mãos? Bebida. Bebida a noite inteira. Farra, muita farra. A noite inteira. É que eu sou alcoólatra. Fim do dia me deixa triste. Tenho que beber minha “caçacha” pra esquecer de lembrar de minhas dores. Homens mijando na beira da estrada. Três. Tudo que há. O que é que vem a ser getoutzinho? Você sabe, daquelas coisas que se ouve em filme norte americano. Get out, get out mothafucker. Get out, getoutzinho. Manchas de sangue no chão. Fuga alucinada. Pouso de simplicidade. Padre Anselmo faleceu com 88 anos, saúde de ferro. Macabéa punha muito açúcar no café porque era de graça e se podia colocar a vontade – ela achava que só pagava pelo café (amargo), não pelo açúcar (doce). A freirinha e o figo – pipocas caídas entre longos varais com grandes lençóis neles estendidos. Se o padre levantar a batina... Extrema unção, epilepsia, convulsão. Balançode rede. Tomar banho e em seguida cair de cara na lama de um curral abandonado. Atropelado por uma viatura – pior se fosse por um carro funerário. Mais uma vez Macabéa, a toda-iludida, a sonhadora: toma, a vida é isso. A vida real não é conto de fadas. Pode ser um conto de fardas, um conto de merda – torta na cara, bala no peito. Vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, tudo vai ficar bem. Só não sei... sei lá. Fisgada no membro que já perdi. Atômica laranja mecânica atônita. À toa. Sucesso para que? Eu queria mas era andar, tô sem um pedaço de mim. Comício de tudo. Transpirar, ofegar, na capela. Não dá, não dá. Desculpa. Me perdoa? Me perdoa? Cair assim feito uma laranja podre não é bom pra ninguém. Onde tem uma vontade, tem um caminho. Certo é o que é e pronto. Nunca vi o mar, mas dizem que não tem fim. Que ter até tem, que para os seus olhos ele chega ao fim, mas continua depois. Não acaba nunca porque onde ele acabaria é o começo de outro, o porto. Ou a volta. Também dizque o mar é cada dia dum jeito, duma cor. Vamos ver o mar. Não morre ainda. Vamos ver. Não tem fim. Você até acha que acaba, você vê que acaba – mas é ilusão óptica. Continua. Não acaba nunca.
imagem A . Suzana Amaral nas gravações de A Hora da Estrela
imagens B, C e D . Hotel Atlântico, de Suzana Amaral, Brazil, 2009 texto . Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll / A Hora da Estrela, de Clarice Lispector remix século XXI . Matheus Matheus

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9.6.09

Casa de Areia

"Toda música é uma superação da tristeza em direção à alegria da vida."
imagem & frase (dita por Jorge Mautner) . Casa de Areia, de Andrucha Waddington, Brasil, 2005

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2.3.09

Estorvo

"; como são noturnos certos cheiros e ruídos: como há bichos noturnos e flores que não se abrem de dia, como há pensamentos tão claros que só a noite se percebem."
imagem . Estorvo, de Ruy Guerra, Brazil, 2000 texto . Estorvo, de Chico Buarque, Brazil, 1991

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18.8.08

Narradores de Javé

"Conheci um cara que era tão maluco que não tinha cabelo, tinha capim."
frase & imagem . Narradores de Javé, de Eliane Caffé, Brasil, 2003

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13.8.08

Nina

"Dostoiévsky na crackolandia" - eu li numa matéria da Folha, na época em que o filme entrou em cartaz no circuito "andergraund", pré-comercial. É preciso tomar muito cuidado para que a convivência com quem se mora não se torne insuportável, não é Dona Eulália? Quem é o júri? Quem é o réu? Nós mesmos? Crime & castigo. Impunidade? Justiça? Salvar a própria pele. Romance ou Filosofia? imagem . Nina, de Heitor Dahlia, Brazil, 2004 texto . Matheus Matheus

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30.7.08

A Hora da Estrela


"Bonito seria tudo aquilo
de que seu corpo
tivesse sede e fome."
imagem 1 . A hora de estrela de Clarice Lispector
imagem 2 . A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, Brazil, 1985
frase . A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector

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22.7.08

Nome Próprio

"Eu não sei se por esse vento frio entrando pela janela ou quem sabe por esse vento frio entrando pela janela ou mesmo por esse aconchego de meias de lãs e esse vento frio entrando pela janela ou por qualquer que seja o que for [eu quero te dizer tantas coisas: Todos os passos que dei um a um [e todas as coisas que passaram e tudo que foi se misturando ao que eu era. Pra você ir sabendo o que sou [posso cantar cada música que ouvi e cada livro e cada bula de remédio e cada rosto e cada tostão emprestado cada choro. Os avisos e as ruas [os andaimes as manchetes os incêndios os sinais. Todas as manhãs. Todos os dias santos. Tudo que me atravessou eu quero te mostrar o corpo que ganhei esses anos os fios e as falhas a voz e o avesso e o tempero e a calma. Quero te contar o silêncio alcançado a custa de guerras e as terras que plantei e os temporais. Os temporais. E os nós na garganta. É maio e eu morro de vergonha de falar de amor. Mas esse vinho quem sabe veio aos verbos mostrar que preciso de sua boca e seu cabelo e seu cheiro e sua mão: eu não sou só verso sou um corpo em lençóis de pele a te vestir como luva. Meu corpo a te vestir como luva. Embriagada de vento e vinho penso na morte e em seu pau duro".

imagem . Nome Próprio, de Murilo Salles, Brasil, 2007
texto . Viviane Mosé

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1.7.08

Toda Nudez Será Castigada

De los rengos y los tuertos Del bajo fondo del puerto Ella anduvo enamorada Su cuerpo es de los errantes Vagabundos y emigrantes, De los que no tienen nada Se entregaba desde niña En garajes o cantinas, Tras la pileta, en el monte Reina de los prisioneros, Las locas, los pordioseros, Los gurises del asilo A menudo a su cuidado Hay viejitos deshauciados Y viudas sin porvenir Es buena como son pocas Por eso la ciudad toda Repitiendo ha de seguir: Tírenle piedra a geni, Tírenle piedra a geni Hecha está para aguantar, Hecha está para escupir, Se entrega no importa a quién, Maldita geni Un dia surgió brillante Entre las nubes fluctuante Un enorme zepelín Se paró en los edificios Abrió unos mil orificios Con mil cañones así La ciudad toda espantada Se quedó paralizada, Casi se volvió jalea Mas del zepelín gigante Descendió el comandante Diciendo - cambié de idea Cuando vi en esta ciudad Tanto horror e iniquidad Resolví hacerla explotar Mas puedo evitar el drama Si es que aquella hermosa dama De noche se entrega a mí Esa dama era geni, Mas no puede ser geni, Hecha está para aguantar, Hecha está para escupir, Se entrega no importa a quién, Maldita geni Sin que se lo propusiera De tan ingenua y sincera Cautivó al forastero El guerrero tan vistoso, Tan temido y poderoso Quedó de ella prisionero Ocurre que la doncella - y eso era secreto de ella - Tenía también sus caprichos Y a darse a hombre tan nobre, Tan oliendo a brillo y cobre, Prefería amar los bichos Al oir tal herejía La ciudad en romería Su mano vino a besar El prefecto de rodillas, El obispo a hurtadillas, El banquero y su millar Anda con él, ve geni Anda con él, ve geni, La que nos puede salvar, La que nos va a redimir, Se entrega no importa a quién, Bendita geni Fueron tantos los pedidos, Tan sinceros, tan sentidos, Que ella dominó su asco Esa noche lancinante Entregóse a tal amante Como quién se da al verdugu Tanta suciedad él hizo Relamiéndose de vicio Hasta quedarse saciado Y no bien amanecía Partió en una nube fría Con su zepelín prateado Con un suspiro aliviado Ella se acostó de lado Y trató de sonreír Mas luego al rayar el día La ciudad en gritería Ya no la dejó dormir - tírenle piedra a geni, Tírenle piedra a geni, Hecha está para aguantar, Hecha está para escupir Se entrega no importa a quién, Maldita geni
imagem . Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor letra . Geni y el zepelin, de Chico Buarque e Daniel Viglietti

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28.6.08

Jogo Subterrâneo

imagem . Jogo Subterrâneo, de Roberto Gervitz, Brasil, 2005 texto . Matheus Matheus

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26.6.08

O Casamento

"Fiéis, assumam sua própria miséria! Assumam sua própria miséria! Assumam sua própria lepra! O importante é o casamento. A confissão de um crime não cometido pelo confessor. A delícia que ele sente ao se entregar. O senhor tem algemas? Ah... os sublimes instrumentos da prisão."
imagem . O Casamento, de Arnaldo Jabor, Brasil, 1975
texto . jabor / genet

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23.6.08

Person

"Essa dor é sua história."
imagem . Person, de Marina Person sobre Luis Sérgio Person, Brasil, 2003 frase . depoimento de Marina Person

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17.4.08

Coração iluminado

"As pessoas deveriam poder mudar tudo o que não gostam."
"Sonhei com você. Sonhei que você estava sonhando comigo."
imagens e fotos . Corazon Iluminado, de Hector Babenco, Argentina / Brasil / França, 1998

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10.4.08

Eu Sei Que Vou te Amar

"Será talvez a língua dele?... a língua... a linguagem... a língua portuguesa? Isto que ele move, uma palavra mole em minha axila, um palavrão mole e duro em minha carne... é isto!... Na verdade é uma palavra que ele mexe dura na minha carne mole, que palavra é esta? Que palavras?... Somos palavras, na verdade é isto? Só somos palavras? É isto que somos? Só palavras?... Mas como? E a carne? Não tenho carne? É... sou palavras, muitas palavras guardadas dentro de uma carne grande que ele deseja, que ele tateia com a língua dura, mole palavra molhada, alguma coisa está se passando debaixo de meus vestidos, começa a babar em minhas pernas, sem que eu saiba, minhas coxas começam a ficar babadas, está saindo água do lado de Cristo de dentro de minhas pernas, descem umas babas, uns babados... babas..."
imagem & texto . Eu Sei Que Vou te Amar, de Arnaldo Jabor, Brasil, 1986

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20.3.08

Madame Satã

Eu tenho uma raiva dentro da minha pessoa que não me permite que me venha a calma. Uma raiva que não tem fim e muito menos explicação. Se não estiver satisfeito com meus tratos, evapora! Nasci foi pra ter vida de malandro. E vou le´vá-la é rasgada. Sou filho de Iansã e Ogum e devoto de Josephine Baker. A vida é melhor quando a gente canta, rebola, se sacode e rodopia. E se eu perder o meu amor assassinado de forma brutal... E se eu perdê-lo... Continuarei nadando com largas braçadas contra o mar revolto. E, ainda molhado de água salgada, ofegante e estirado na areia, receberei a água da chuva.
imagens . Madame Satã, de Karim Ainouz, Brasil, 2002 texto . Matheus Matheus, construído a partir de imagens editadas de Madam Satan, de Cecil B. de Mille e da postura da pessoa incorporada por Lázaro Ramos

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19.3.08

A Rainha Diaba

Noite alta, céu risonho A quietude é quase um sonho O luar cai sobre a mata

Qual uma chuva de prata

De raríssimo esplendor

Só tu dormes, não escutas

O teu cantor

Revelando à lua airosa

A história dolorosa desse amor

Lua...

Manda a tua luz prateada

Despertar a minha amada

Quero matar meus desejos

Sufocá-la com os meus beijos

Canto

E a mulher que eu amo tanto

Não me escuta, está dormindo

Canto e por fim

Nem a lua tem pena de mim

Pois ao ver que quem te chama sou eu

E entre a neblina se escondeu

Lá no alto a lua esquiva

Está no céu tão pensativa

As estrelas tão serenas

Qual dilúvio de falenas

Andam tontas ao luar

Todo o astral ficou silente

Para escutar

O teu nome entre as endechas

A dolorosas queixas

Ao luar

texto . Noite cheia de Estrelas, letra & música de Cândido Neves imagem . A Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura, Brasil, 1974

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27.2.08

bicho de 7 cabeças

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
imagem . Bicho de 7 Cabeças, de Laís Bodanzky, Brazil, 2000
texto . O Buraco do Espelho, de Arnaldo Antunes

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24.2.08

2 perdidos numa noite suja

Quando eu quis você
Você não me quis
Quando eu fui feliz
Você foi ruim
Quando foi afim
Não soube se dar
Eu estava lá mas você não viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim
Se eu já me perdi
Quando perdi você
Quando eu quis você
Você desprezou
Quando se acabou
Quis voltar atrás
Quando eu fui falar
Minha voz falhou
Tudo se apagou você não me viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim
Mas se eu já me perdi
Como vou me perder
Se eu já me perdi
Quando perdi você
Mas se eu já te perdi
Como vou me perder
imagem . 2 Perdidos numa Noite Suja, de José Joffily, baseado na obra de Plínio Marcos, Brazil, 2002
texto . 2 Perdidos, de Arnaldo Antunes e Dadi

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