"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

29.4.09

O Amor nos Tempos do Cólera

"Florentino Ariza se lembrou de uma frase que ouvira menino do médico da família, seu padrinho, a propósito da sua prisão de ventre crônica: "O mundo está dividido entre os que cagam bem e os que cagam mal." Sobre esse dogma o médico elaborara toda uma teoria do caráter, que considerava mais certeira do que a astrologia. Mas com as lições dos anos, Florentino Ariza a formulou de outro modo: "O mundo está dividido entre os que trepam e os que não trepam." Desconfiava dos últimos: quando saíam dos trilhos, era para eles tão insólito que alardeavam o amor como se tivessem acabado de inventá-lo. Os que o faziam amiúde, em compensação, viviam só para isso. Sentiam-se tão bem que se comportavam como sepulcros lacrados, por saberem que da discrição dependia sua vida. Nunca falavam de suas proezas, não confiavam em ninguém, bancavam os distraídos até o ponto de ganharem fama de impotentes, de frígidos, e sobretudo de maricas tímidos, como era o caso de Florentino Ariza. Mas se compraziam no equívoco, porque o equívoco também os protegia. Eram uma loja maçônica hermética, cujos sócios se reconheciam entre si no mundo inteiro, sem necessidade de um idioma em comum. Daí o fato de Florentino Ariza não se surpreender com a resposta da moça: era um dos seus, e portanto sabia que ele sabia que ela sabia."
imagem 1 e texto . El amor en los tiempos del cólera, de Gabriel García Márquez
imagem 2 . Love in the time of the Cholera, de Michael Newell, EUA, 2007

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20.4.09

Ensaio sobre a cegueira

"ver, ver, ainda que não fosse mais que umas vagas sombras, estar diante de um espelho, olhar uma mancha escura difusa e poder dizer, Ali está a minha cara, o que tiver luz não me pertence." "seria só uma fadiga infinita, uma vontade de enrolar-se sosbre si mesma, os olhos, ah, sobretudo os olhos virados para dentro, mais, mais, mais, até poderem alcançar e observar o interior do próprio cérebro, ali, onde a diferença entre o ver e o não ver é invisível à simples vista." "Este é o retrato do meu corpo, pensou, este é o retrato do corpo de quantas aqui vamos, entre estes insultos e as nossas dores não há mais do que uma diferença, nós, por enquanto, ainda estamos vivas." imagem . Blindness, de Fernando Meirelles, Brasil, Canadá, Japão, 2008 (clique na imagem para ampliá-la) texto . Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago mais Saramago em : www.caderno.josesaramago.org mais Blindness em : www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br

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18.4.09

Um copo de cólera

"era preciso começar por enxergar a própria pata, o corpo antes da roupa, uma sentida descoberta precedendo a comunhão, e se quisesse teria motivos de sobra pra pegar no seu pezinho, não que eu fosse ingênuo a ponto de lhe exigir coerência, não esperava isso dela, nem arrotava nunca isso de mim, tolos e safados é que apregoam servir a um único senhor, afinal, bestas paridas de um mesmíssimo ventre imundo, éramos todos portadores das mais escrotas contradições, mas, fosse o caso de alguém se exibir só como pudico, que admitisse nessa exibição, e logo de partida, a sua falta de pudor, a verdade é que me enchiam o saco essas disputas entre filhos arrependidos da pequena burguesia, competindo ingenuamente em generosidade com a maciez de suas botas, extraindo deste corte uns fumos de virtude libertária, desta purga ela gostava tanto quanto se purgava ao desancar a classe média, essa classe quase sempre renegada, hesitando talvez por isso entre lançar-se às alturas do gavião, ou palmilhar o chão com a simplicidade das sandálias."
texto . Um copo de cólera, de Raduan Nassar
imagem . Um copo de cólera, de Aluízio Abranches, Brazil, 1999

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14.4.09

A Dama das Camélias

"Somos criaturas do acaso, temos desejos extravagantes e amores inconcebíveis. Nós nos damos ora por uma coisa, ora por outra. Há pessoas que se arruinariam sem obter nada de nós, há outras que nos possuem com um buquê de flores. Nosso coração tem caprichos; é sua única distração e sua única desculpa."
texto . La Dame Aux Camélias, de Alexandre Dumas Filho
imagem . Greta Garbo e Robert Taylor em Camille, de George Cukor, EUA, 1937

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22.10.08

O Caçador de Pipas

"Quem somos nós neste mundo complicado?"
imagem & frase . The Kite Runner, de Mark Forster, EUA, 2007

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9.10.08

O Senhor das Moscas

imagem . Lord of the Files, de Harry Hook, EUA, 1990 texto . qualquer trecho de Perto do Coração Selvagem, da Clarice Lispector (Desliga o pc e vá ler um livro)

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25.7.08

Pergunte ao Pó

"Quanto às suas ansiedades por suas experiências limitadas de vida em geral e em particular com mulheres, infelizmente é comum os autores terem menos experiências que outros homens. Isto se deve ao fato incontestável de que você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ou você está diante da máquina de escrever, ou está no mundo lá fora, tendo experiências. Portanto, como você precisa escrever, e também precisa ter experiências sobre as quais escrever, você tem que aprender a fazer mais com menos. E fazer mais com menos, em uma palavra, é escrever."
imagem . Ask the Dust, de Robert Towne, EUA, 2006
texto . John Fante

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19.7.08

2001

imagem & pôsteres . 2001: A Space Odyssey, de Stanley Kubrick, EUA, 1968

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18.7.08

1984

"Who controls the past controls the future. Who controls the present controls the past."
"Are you such a dreamer? To put the world to rights? I'll stay home forever Where two & two always makes up five I'll lay down the tracks Sandbag & hide January has April's showers And two & two always makes up five It's the devil's way now There is no way out You can scream & you can shout It is too late now Because You have not been paying attention I try to sing along I get it all wrong Ezeepeezeeeezeepeeezee NOT I swat em like flies but Like flies the burgers Keep coming back NOT Maybe not "All hail to the thief" "But I am not!" "Don't question my authority or put me in the dock "Cozimnot! Go & tell the king that The sky is falling in When it's not Maybe not."
texto l . 1984, de George Orwell texto 2 . 2 + 2 = 5, do Radiohead (Hail to the Thief or The Gloamming, 2003) imagens . Nineteen Eighty-Four, de Michael Radford, Reino Unido, 1984

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7.5.07

laranja mecânica

I
Questões duras e profundas. Na realidade, é muito simples: nós apenas passamos uns filmes para você. Ser assim só como ir ao cinema. São filmes muito especiais. É engraçado como as cores do mundo real só parecem realmente reais quando a gente videa elas na tela.
II
Então, irmãos, começou. Ah, benção, benção dos Céus! Fiquei deitado, completamente nagói, olhando pro teto o gúliver sobre as mãos no travesseiro, os glazes fechados, o róte aberto em beatitude, esluchando o esguicho de lindos sons. Ah, era o belo e a beleza feitos carne. Os trombones mastigavam ouro debaixo da minha cama, por detrás do meu gúliver, os trompetes lançavam chamas de prata em três direções e lá, perto da porta, os tímpanos rolavam por dentro das minhas tripas e tornavam a sair, mastigados como um torrão de trovão. E então, pássaro do mais raro tecido de metal celeste, ou como vinha prateado correndo numa espaçonave, a gravidade transformada agora em absurdo, veio o solo de violino, por sobre todas as outras cordas, e essas cordas eram como que uma gaiola de seda em volta da minha cama. Depois, a flauta e o oboé perfuraram, como se fossem vermes de platina, o espesso, espesso torrão de ouro e prata. Pê e ême, no quarto de dormir ao lado, já tinham aprendido a não bater na parede se queixando do que chamavam de barulho. Eu tinha ensinado a eles. Agora eles tomavam pílulas pra dormir. Talvez sabendo da alegria que eu sentia com minha música noturna, eles já deviam ter tomado. Enquanto eu esluchava, meus glazes bem apertados pra trancar do lado de dentro a beatitude que era melhor do que qualquer Bog de sintemesque, eu via imagens lindas. Tinha véques e ptitsas, tanto jovens quanto estarres caídos no chão, gritando por misericórdia e eu esmecando o róte inteiro e moendo os litsos deles com a bota. E tinha devótchcas rasgadas e crithcando contra as paredes e eu metendo nelas como uma chilaga e, realmente quando a música, que tinha só um movimento, chegou ao topo da sua torre mais alta, então eu [FALTA ALGUM TEXTO] gritei aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh de beatitude. E a linda música deslizou para seu término cintilante.
III
Alguns de nós temos que lutar. Há grandes tradições de Liberdade a defender. Eu não sou um homem de Partido. Onde eu vejo infâmia, tento apagá-la. Nomes de Partido não significam nada. A tradição de Liberdade significa tudo. As pessoas comuns deixam passar, ah deixam. São capazes de vender a Liberdade por uma vida mais sossegada.
A clockwork orange de Stanley Kubrick, Inglaterra, 1971
texto . A clockwork orange, de Anthony Burguess

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30.4.07

germinal

"A velha sociedade não existirá mais. Um mundo novo vai nascer mas as desigualdades não desaparecerão. Sempre haverá pessoas mais inteligentes que engordarão à custa dos fracos. Não há solução."
"Querem comprar títulos e viver sem fazer nada. Essa é a idéia de vocês. Desenterrar um tesouro só para vocês. Mas não têm coragem de dar aos outros pobres esta dádiva. Nunca merecerão a felicidade enquanto possuírem algo. Reclamam dos ricos porque os ricos são ricos e eles não - são pobres. Mas seu ódio pelos burgueses vem do anseio de serem burgueses também."
Imagens & Textos . Germinal, de Claude Berri, França, 1993

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27.4.07

os sonhadores

"Todo poema é uma petição.
Toda petição é um poema."

Imagem & texto . The Dreamers, de Bernardo Bertolucci, EUA/França/Itália, 2003

mais sonhos em: http://junkiesvilipendiados.blogspot.com/2006/08/os-sonhadores.html

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9.2.07

por quem os sinos dobram

Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma
partícula do CONTINENTE, uma parte da TERRA, se um
TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA fica
diminuída, como se fôsse um PROMONTÓRIO,
como se fôsse o SOLAR de teus AMIGOS ou
o TEU PRÓPRIO; a MORTE de qualquer
homem ME diminui, porque sou
parte do GÊNERO HUMANO.
E por isso não perguntes
por quem os SINOS
dobram; êles
dobram
por ti

imagem . For Whom the Bells Tolls, de Sam Wood, EUA, 1943

texto.John Donne, do início do livro de Ernest Hemingway

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9.8.06

os sonhadores

Sonhar acordado é uma loucura tomando conta da alma duma pessoa de tal forma que essa pessoa não consegue ao menos fingir não sonhar. Os sonhos vão surgindo e desfilando diante dos olhos como a grossa e azulada fumaça sobe pelo ar. Quem prefere conversar iluminado pelas chamas de velas? Quem não gosta de televisão e só assiste à filmes quando vai ao cinema? Olhos fixos na superfície colorida da tela de projeção - no mínimo duas cores. O breu da sala à luz de velas. O breu da sala à luz da tela. Coisas pouco convencionais acontecem em ambientes de iluminação irregular. Sonhos bons, sonhos maus. Com intensidade. Os olhos cheios de brilho do sonhador param perdidos a olhar os sonhos se criando, se formando na perplexidade mágica do devaneio. O sonhador é meio aéreo, fora do ar. Para o sonhador o sonho basta e sua realização não é tão bela como quando o sonho só morava dentro da mente. Não há correntes que prendam quem sonha. Quando o algoz sorri tranquilo por pensar tê-lo capturado, no sonhador se desvencilha num reles truque infantil de ilusão óptica - porque as correntes dos leigos não conseguem manter cativos os pensamentos sonambulando. O que é desvairado num sonhador é o desejo, bicho bruto e sem rédea - pulsando vermelho. O que passar pela cabeça tem antes de ter batido no coração. A inquietude de contrariar o estabelecido adormecido: o calculável - a sobriedade, a moral e o interdito: dito entre linhas. Sonhadores podem se alienados mas não são tranquilos. São inquietos. A revolução? A revolução está acontecendo lá fora - mas, enquanto dormimos depois do gozo lascivo, alguma pedra pode atingir nossa paz até então perfeita e quebrar nossa janela, certo? Non, rien de rien. Non, je ne regrette rien. E o preço da interrupção deste sono de rogozijo pode ser a integração total à Causa. Os corpos se entregando ao fogo e aos gritos ao ar livre. Este sacrifício teria sido provocado por alguma sala escura? Quem vai saber... Catar os sonhos no ar até lá. Inclusive sonhos alheios que os outros não têm a coragem de sonhar. Não têm a coragem sequer de admitir. É por esse motivo que nem se lembram dos próprios sonhos - aos não-sonhadores (os esquecidos) só resta o gosto mau na boca quando acordam. E ainda zombam dos que têm coragem de sonhar e de contar seus sonhos estranhos. Estranhos? Não existem sonhos estranhos mas sim existem pessoas estranhas que não sonham. Muito perigoso e muito bonito é quando um sonhador tromba com outros sonhadores e, juntos entre si e isolados do resto do mundo, confabulam um exclusivo intercâmbio de beleza. texto . matheus só aos sonhadores em geral, espectadores dos sonhos que criaram ou simplesmente dos sonhos que acham belos.

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