"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

3.3.09

Paranoid Park

"Se Capricórnio fosse Câncer,
Se Califórnia fosse França,
A rampa que lança o skate aos céus seria nosso chão.
- Humberto Gessinger -
Ninguém está preparado para um parque tão paranóico. Qual castigo para qual crime? Por acidente auto-absolvição. Em câmera lenta para prender a atenção ao estertor do extremo e deixar o espectador de mente dispersa boquiaberto - por favor, sem intervalos comerciais!: banho de água fria.
imagens . Paranoid Park, de Gus Van Sant, EUA, 2007
resenha (?) matheus matheus

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13.3.08

E sua mãe também

"La vie c'est comme faut se donner comme la mer."
"A vida é como a espuma, por isso devemos nos dar como o mar."
imagens, frase e cartazes . Y Tu Mama También, de Alfonso Cuarón, México, 2001

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29.2.08

as virgens suicidas

"Então começamos a saber das vidas delas. E começamos a ter lembranças de coisas que não tínhamos passado. Sentimos a prisão da vida de uma garota. A forma como isto torna a sua mente ativa e sonhadora e como acaba sabendo de cores que combinam. Sabíamos que as garotas na realidade eram mulheres disfarçadas que conheciam o amor e até a morte. E que o nosso trabalho era criar o barulho que parecia fasciná-las. Sabíamos que sabiam tudo de nós. Mas nós nunca poderíamos entendê-las."
imagens & texto . Virgins Suicides, de Sofia Coppola, EUA, 2000

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21.2.08

kids

A vida da juventude. A droga da juventude. A droga da vida da juventude. A vida da droga da juventude. A juventude dói. Balada, balada, balada... dormir. Balada, balada, balada... dormir. Balada, balada, balada... dormir. Sono contínuo. Imersão num mundo fútil. Imersão num mundo inútil. Imersão num mundo ignóbil. O sexo sempre excitado. Garotos excitáveis, vulneráveis, impalpáveis. Inchados, vermelhos, pulsantes. Impalpáveis. Vermelhos: um boné vermelho, um skate vermelho, sangue vermelho escorrendo, sorvete de morango, pirulito de acerola, ácido lisérgico. Vermelhos. Por enquanto, tudo vermelho-sangue. Em breve tudo desbotará, déspota. Então aproveite? Aproveitar o quê? Aproveitar como? Comendo? Engordando em frente a TV? Ou saindo pra rua? O que há de Mal na rua? Para quê se preocupar? Para quê? Com o quê? Receba este bofetão da vida - cusparada nojenta na cara. E vê se aprende, mano meu, que a vida não é só tua escola, teu trabalho e teu lazer - além da rotina a vida também deve ter prazer. E prazer saudável. Existe um motivo, um tênue e importantíssimo fio que une o momento em que sua mãe foi engravidada ao instante em que darás o último suspiro. Este fio é o que dá sentido a tua vida.
texto . matheus matheus
imagens . Kids, de Larry Clark, EUA, 1995

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20.2.08

elephant

é preciso acreditar num novo dia
na nossa grande geração perdida
nos meninos e meninas
nos trevos de quatro folhas
a escuridão é ainda pior que essa luz cinza
mas estamos vivos ainda
imagens . Elephant, de Gus Van Sant, EUA, 2003 letra . Natália, da Legião Urbana

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19.2.08

Ken ParK

já não passa nenhum carro por aqui
já não passa nenhum filme na tv
você enrola outro cigarro por aí
e não dá bola pro que vai acontecer
mais um pouco e mais um século termina
mais um louco pede troco na esquina
tudo isso já faz parte da rotina
e a rotina já faz parte de você
todo mundo já tomou a coca-cola
a coca-cola já tomou conta da china
todo cara luta por uma menina
e a palestina luta pra sobreviver
a cidade, cada vez mais violenta
(tipo chicago nos anos quarenta)
e você, cada vez mais violento
no seu apartamento ninguém fala com você
você que tem idéias tão modernas
é o mesmo homem que vivia nas cavernas
Imagens . Ken Park, de Larry Clark, EUA, 2002 Versos . Crônica, de Humberto Gessinger

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30.11.06

gummo

Triste ocaso jogado aos mortais como brinde revoltoso da natureza. Perambular em jejum por esta terra esquecida pelo deus dos sem deuses.

Buscando uma chuva que seja choro, que seja beijo, que seja expor este animal morto. Segurá-lo pelo pêlo, apontá-lo para a lente: para estes espectadores estarrecidos e horrorizados pelo cotidiano da juventude. E o que te resta? Esta música estranha?

texto.matheus só

imagem.gummo

http://www.harmony-korine.com/paper/main/visuals.html http://www.finelinefeatures.com/gummo/

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29.11.06

nó na garganta

I
A vida do garoto Francie é um rosário de desgraças: mãe perturbada e suicida, pai bêbado e violento, vizinhos cruéis que adoram humilha-lo. Mas este filme de Neil Jordan, o diretor de Entrevista com o Vampiro, está a anos-luz de um drama convencional: da fotografia naturalista à narração satírica, da violência terrível (e cômica) de Francie aos toques surreais (a cantora Sinéad O’Connor é a Virgem Maria que visita o garoto), ele é uma viagem vertiginosa e embriagante pela mente de um personagem que só a melhor ficção poderia retratar.

II

Francie é um menino que tem uma vida difícil: o pai é um alcoólatra que nunca traz dinheiro para dentro de casa, a mãe é uma viciada em calmantes com tendências suicidas e forte inclinação para a loucura e a compulsividade, os vizinhos o rejeitam por ser pobre e rebelde. Francie, então, busca refúgio em peraltices pouco ortodoxas para atingir o nível de fantasia de que precisa para não desperdiçar a infância. Foi extremamente coerente a decisão da distribuidora (que inicialmente tinha batizado o filme de “Fúria Inocente”) de trocar o nome para “Nó na garganta”. De inocente a fúria de Francie não tem nada. O título definitivo faz jus à grande maioria das cenas, pois não são raros os momentos em que o espectador engole seco – mas mesmo assim sem deixar de ter os olhos úmidos se for sensível. Repare no fino e cínico humor com que várias seqüências aniquilam certas instituições e ideologias. Repare também no delicado e nauseante lirismo que surge da comparação entre a raça humana e os suínos para acabar eclodindo num sonho alucinógeno e perturbador um pouco antes do desfecho. E algumas alusões à obra-prima-mor de Stanley Kubrick – como, por exemplo, a traição do melhor amigo. Desta vez são pequenos drugues com ultraviolências não menos contundentes que vão crescendo e se tornando cada vez mais horríveis - Porque? Responda! Porque? Aquela questão da reforma de uma pessoa que até agora não parece ter-se solucionado através de nenhuma vertente da sociedade. Redenção! Milagre! Salvação! Quanto conforto há nesses ópios populares... E o tom irônico como falam para fingir que são comuns... É como se dissessem: tudo está bem desde que finjamos que tudo está bem. Este Neil Jordan é bem mais polêmico do que em “Entrevista com o Vampiro”. E também bem menos comercial – desta vez no sentido literal da palavra “comercial”, já que o filme foi muito pouco visto nos cinemas. Aqui no BraZiL nem chegou a entrar em cartaz... Falar nisso, alguém por aí viu “Café da Manhã em Plutão”?

Imagem.The Butcher Boy, de Neil Jordan, Irlanda/EUA, 1997 Resenha (I) . Isabela Boscov Texto (II) . Matheus Só

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