"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

25.10.07

O Pássaro de Fogo

Não havia civilização nem linguagem escrita nem linguagem falada. Sequer palavras. Sequer símbolos que pudessem ser, à carvão, grafados numa parede. Tudo era muito primitivo e elementar. Os seres não tinham ambição de progresso. Afinal, o progresso que iria vir seria bom? Teria ordem? Tudo já estava em ordem - a ordem perfeita para a qual havia sido criada. Já existia os seres que serviam ao Bem e também já existia os seres que serviam ao Mal. E, acima deles todos, as quatro estações. Na floresta tudo era gelo e sombra. O inverno rigoroso a tudo petrificara. Tudo estava congelado, esperando a hora de ser, quase sendo - como sempre tinha sido. Um animal silencioso vagava por estes ambientes nublados. Imponente, ele era todo vida mas estava com sede. O frio era tanto que era raro encontrar u'a água que não estivesse em estado sólido. Bafejava na procura incansável, pelas narinas saía fumaça: a quentura vinda de dentro do corpo em contraste com a gelitude do inverno.
Encontrou, então, uma pequena caverna cuja entrada lembrava um cocar. Lá havia um rio. Descongelou a ponta de uma estalactite com seu hálito morno, e a gota caiu líquida juntando-se às demais. Partezinha do rio.
Esta gota, no entanto, era algo por demais especial. Sob a minúscula forma aquática se disfarçara muito bem, mas era algo muito maior que aquilo. Nadando na água doce saiu do estado cristalizado no qual se encontrava há algum tempo - quanto tempo?
Para quê? Para nascer mais uma vez. E ser conduzida pelo mais forte (o animal) ao seu destino. O seu destino era se tornar mais forte que o forte, para dar força. Para nao fraquejar jamais.
Abrir as asas sobre o gelo, que era de dormência, e acordá-lo, e derretê-lo. A espalhar serena e amplamente um florescer eterno. Eterno naquele instante para quem se dispusesse a vê-lo.
Ah. Borboletinhas coloridíssimas por todo o lado. Elas, com a vida tão curta mas inigualavelmente tão bela. As borboletas não eram apenas borboletas. Elas eram quase só as cores que estavam impressas nelas, de tão leves. Abrir de olhos estonteante - sentí-las pousando nos cabelos.
Libertar os troncos encarquilhados pelo inverno para que respirem e respirando possam possibilitar aos outros um ar bem mais puro.
Cultivar a flor lilás tão delicada e tímida até transformá-la num amarelo incandescente.
Encher de folhas e de flores as árvores que precisam de folhas para dar ar e de flores para gerar o fruto que alimenta.
Sempre tanto trabalho por fazer. Cobrir de verde - verdejar. Verde ar. Verdear. Até onde der. E se não der? O que fazer? Respeitar o lugar e deixá-lo seco? Ou insistir? Insistir, semear, descobrir porque o solo é infértil. Porque em determinado solo não nasce nada. Há um vulcão intocado. Deve ser acordado? O que ele pretende? Vai saber... Cuidado!
Pode não ser bonito mas é "pelo risco que se vive, sem o qual nada vale a pena." Pode ser feio, pode ser treva - mas o destino de tudo é evoluir. Mesmo que exploda, ofenda, ironize.
O fogo que cega e destrói - o verão. Sol a badalar, a queimar a nuca, a fumegar. Longas lavas a lamber o chão, destruindo aquilo que havia de mais bonito. Porque? A Natureza tem seu ritmo. É preciso não violentar nada. É preciso não alterar nada que seja natural. Tudo é cíclico. Para que ir contra?
Às vezes algo é destruído para que dele nasça algo mais forte, diferente.
Outono é tempo sereno e seco de refazenda.
Inverno tudo congela novamente.
Final do inverno é o chamado - a visão das coisas secas que estão fracas mas, como já foi dito que tudo no mundo é cíclico, voltarão a florescer. No início pequeninas quase não percebidas. Mas é elementar ser elementar. Só precisa de cuidado para brotar mas ainda tem poder.
Ser erguida pelo mesmo animal de antes. Sempre generoso e bravo animal. Sentir o vento a bater nos cabelos. Relembrar o propósito de sua existência. Eis que novamente os olhos se abrem como um mel. E as pernas fortes do animal cavalgam esporando a terra seca.
Adiante será fértil. Mais uma vez verdejar. É só ter cuidado. Relembrar o porque de se estar aqui. É só proteger enquanto a força parecer pequenina. Nunca. Sempre grandiosa, ainda que adormecida. Só é preciso cuidá-la enquanto estiver pequenina, como uma plantinha que vai ser essencial para dar ar no futuro.
Variação de fênix, ressurgido das próprias cinzas. Agora, cabelos ao vento, crescendo rapidamente, neste constante prosseguir sustentado pelos pêlos fortes: suas asas.
Chora. Pode chorar. Que tuas lágrimas fertilizarão este chão ressecado. Que tuas lágrimas serão mansidão para este sertão tenebroso. As primeiras gotas rápido se evaporam, por causa do calor de tanto tempo sem saber de líquido. Mais adiante darão frutos. E, como algo mágico e fabuloso, de cada lágrima tua nascerá uma planta. Cheia de vida, cheia de forma - exuberante como tu eras antes. Como tu eras antes! E agora, então, não és? Tal qual antes, és outra mas é a mesma. És outra mas traz a mesma essência de sempre: "festa de delicadeza, nítido farol, sinal." Nos primeiros passps te assustas mas depois sorris e relembras o que eras. E então és.
E emanas o que és, o que sempre fostes voltastes a ser. Volver. Vai ver. Abre novamente as asas: teus cabelos, teu olor... É primavera. Sem tristezas, sem ressentir o que já passou: o que já passou já passou. Agora é hoje, sabes disto. Ainda és capaz. Ora água doce, ora mata. Ora céu, ora mar...
Natureza - lindeza que, cumprindo seu propósito, se amplia soberanamente em beleza. Quando a vemos, por mais tempo que passe, não desgruda da memória. Vê a alegria do teu primeiro amparador, vê a chuva que vem caindo. E os novos frutos brotando. E crescendo mais fortes, mais belos do que antes. Ou talvez não, apenas diferentes.
A arte é árvore milenar. Somente através dela superamos nosso limite, tão breve, de vida.
Ah... a tontura de mais de mil borboletas a te rodear. Mais, muito mais de mil. Muito mais. Incontáveis. Personagem de tantas batalhas, estende o tapete verde com teu manto até onde puderes. Sente a alegria de estar semeando coisa nova. Margeando o vulcão. Em redor do vulcão. Mas o respeita, não vai lá.
Ou estará intrínseco ao nosso caráter desafiá-lo?
Ser elementar: o prazer de tentar o novo, mesmo que o saiba velho.
Espetáculo que nunca termina a menos que não se saiba aproveitá-lo.
Quantos se bloqueiam? Sem julgamentos. Sem medo do fogo eterno. Agora é daqui para adiante. A olhar o horizonte.
texto . Matheus Matheus imagem . último episódio de Fantasia 2000, dirigido por Gaëtan Brizzi e Paul Brizzi, a partir da música O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsk

1 Comments:

Anonymous ana said...

tou escutando elis.
me deu vontade de comentar aqui.
amo-te, rapaz.

4:29 PM

 

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