"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

5.9.07

A Casa dos Espíritos

"Quanto vive o homem, afinal? Vive mil anos ou um só? Vive uma semana ou vários séculos? Por quanto tempo morre o homem? O que significa para sempre?"
(Pablo Neruda)

ROSA - "Quando nasceu, Rosa era branca, lisa, sem rugas, como uma boneca de porcelana, com o cabelo verde e os olhos amarelos, a criatura mais formosa nascida na Terra desde os tempos do pecado original, como disse a parteira, benzendo-se. Aos 18 anos, Rosa não tinha engordado e não lhe haviam brotado espinhas; entretanto acentuara-se, isso sim, sua graça marítma. O tom da pele, com reflexos azulados, e o do cabelo, a lentidão dos movimentos e o caráter silencioso evocavam um habitante da água." TIO MARCOS - "comprou um realejo e saiu pelas ruas com a intenção de seduzir sua prima Antonieta e, ao mesmo tempo, alegrar o público com sua música de manivela. A engenhoca não passava de um caixote ronhento provido de rodas, mas ele o pintou com motivos marítmos e lhe apliou uma falsa chaminé de barco, dando-lhe o aspecto de um fogão a carvão. O realejo alternava uma marcha militar e uma valsa e, a cada volta da manivela, o papagaio , que aprendera espanhol embora mantivesse sotaque estrangeiro, atraía o público com gritos agudos e, com o bico, pegava papeizinhos de uma caixa para vender a sorte aos curiosos. Os papéis, cor-de-rosa, verdes e azuis, eram tão engenhosos, que indicavam os mais secretos desejos do cliente." A MENINA CLARA - "Então, deslizou até sua cama, sentindo por dentro todo o silêncio do mundo. O silêncio encheu-a por inteiro, e ela só voltou a falar nove anos depois, quando emitiu sua voz para anunciar que ia se casar." FÉRULA - Cuidara dele e o servira como fazia agora com a mãe e também o envolveu na rede invisível das dívidas de gratidão não pagas. O rapaz começou a afastar-se dela assim que vestiu calças compridas. Esteban era capaz de identificar o momento exato em que se deu conta de que sua irmã era uma sombra fatídica." ESTEBAN TRUEBA - "Era nos detalhes que estava a diferença entre um cavaleiro e um camponês." "Seria muito bonito se fôssemos todos iguais, mas não somos." BARRABÁS - "À media que o cão foi crescendo , tornaram-se evidentes suas distrações. Nunca compreendeu a natureza translúcida do vidro e em seus momentos de emoção costumava avançar correndo para as janelas, com a inocente intenção de pegar algumas moscas. Caía do outro lado, em meio a um estardalhaço de vidros quebrados, espantado e triste." CLARA & BLANCA - "Clara falava com a menina o tempo todo, sem empregar meias palavras nem diminutivos, em perfeito espanhol, como se dialogasse com uma adulta, da mesma maneira pausada e racional com que falava com os animais e com as plantas." BLANCA & PEDRO - "Brincaram em meio aos pacotes, enfiaram-se sob os móveis, molharam-se com beijos babados, mastigaram o mesmo pão, sorveram os mesmos catarros, besuntaram-se com a mesma caca, até que, por fim, adormeceram abraçados sob a mesma sala de jantar. Quando os encontraram, o menino estava de costas no chão, e Blanca deitava-se com a cabeça apoiada no ventre pançudo do novo amigo." TRANSITO SOTO - "Tinha as unhas pintadas de vermelho e uma serpente tatuada em torno do umbigo, que conseguia mover em círculos enquanto mantinha em perfeita imobilidade o resto do corpo." AS IRMÃS MORA - "Não se pode encontrar quem não quer ser encontrado." CLARA - "Ao nomear os problemas, eles se materializavam e já não era possível ignorá-los; por outro lado, se ficam no limbo das palavras não ditas, podem desaparecer sozinhos, com o decorrer do tempo." A FAMÍLIA DEL VALLE - "Se as loucuras se repetem na família, deve ser porque existe uma memória genética que impede que se percam no esquecimento." JEAN DE SATGNY - "Não gostava que respirassem muito perto dele, lhe dessem a mão, lhe fizessem perguntas pessoais, pedissem livros emprestados ou lhe escrevessem cartas." O POVO DA FAZENDA LAS TRES MARIAS - "Seu tempo media-se por estações, seus pensamentos por gerações. Eram lentos e prudentes." JAIME - "Acreditava que o cristianismo - como, aliás, quase todas as superstições - tornava o homem mais fraco e conformado e que não se deveria esperar recompensa no céu, mas, sim, lutar por seus direitos na terra." BLANCA - "Vegetava como uma flor de outro clima dentro daquela casa encravada nos areais, que parecia existir em outra dimensão, rodeada de nativos insólitos, surpreendendo com frequência pequenos detalhes que a induziam a duvidar de seu próprio juízo. A realidade parecia-lhe indefinida, como se aquele sol implacável que desbotava as cores também tivesse deformado as coisas que a rodeavam e convertido seres humanos em sombras silenciosas. Flutuando numa nebulosa, sem tristezas nem alegrias, alheia às coisas brutais da vida, isolada." JAIME - "Só se lê o que interessa, e, se interessa, é porque já se tem maturidade para fazê-lo." NICOLÁS - "Não opondo resistência à dor, para que a transpassasse sem nela permanecer." ESTEBAN GARCIA - "Se o que você quer é andar armado, entre ser delinquente e ser da polícia, é melhor ser da polícia, porque tem impunidade." CLARA - "Tal como no momento de vir ao mundo, ao morrer temos medo do desconhecido. Mas o medo é algo interior, que nada tem a ver com a realidade. Morrer é como nascer: apenas uma mudança." "Nunca acreditava que o mundo fosse um vale de lágrimas, mas, ao contrário, uma pilhéria de Deus, e, por isso, seria estupidez levá-lo a sério, se Ele próprio não o fazia." BLANCA & PEDRO - "Blanca preferia aqueles furtivos encontros com seu amante em hospedarias à rotina de uma vida em comum, ao cansaço de um casamento e ao pesadelo de envelhecer juntos, compartilhando as penúrias do final do mês, o mau hálito da boca ao acordar, o tédio dos domingos, e os achaques da idade. Era uma romântica incurável." ALBA & MIGUEL - "No inverno gostavam de ir às praias desertas, andar sobre a areia molhada, deixando pegadas que a água lambia, espantar gaivotas e respirar às golfadas o ar salgado do mar. No verão, preferiam os bosques mais densos, em que se podiam amar impunemente, depois de despistar crianças curiosas e excursionistas." ALBA & JAIME - "Jaime era um imã para atrair os problemas alheios e as misérias irremediáveis, e era necessário que alguém o atualizasse a respeito da primavera e do amor." AMANDA - "O esvoaçar de seu cabelo, o chocalhar de suas miçangas, seu riso como o badalar de um sino e sua purezapara abraçar idéias disparatadas e perseguir ilusões." PABLO NERUDA - "O Poeta agonizou em sua casa junto ao mar. Estava doente, e os acontecimentos dos últimos tempos esgotaram seu desejo de continuar vivendo. A tropa revirou-lhe a casa, suas coleções de búzios, suas garrafas, suas carrancas, resgatadas de tantos mares, seus livros, seus quadros, seus versos inacabados, à procura de armas subversivas e de comunistas escondidos, até que seu velho coração de bardo começou a falhar." CLARA PARA ALBA NA CLAUSURA - "A graça não estava em morrer, porque isso aconteceria de qualquer maneira, mas, sim, em sobreviver, o que era um milagre." CRISTÓBAL COLÓN - "Multiplicavam o espaço, enganavam o clima, criavam o infinito e eliminavam o tempo." ANA DÍAZ - "Para você escrever e ver se tira de dentro o que está apodrecendo, se melhora de uma vez, canta conosco e nos ajuda a cozinhar." ESTEBAN GARCÍA - "É um traço rude, mas nenhuma pincelada é inútil."
A MULHER DO POVO QUE ACOLHE ALBA - "Ficamos conversando o resto da noite. Era uma daquelas mulheres estóicas e práticas de nosso país, que têm um filho de cada homem que passa por suas vidas e que, além disso, recolhem em seu lar as crianças que os outros abandonam, os parentes mais pobres e qualquer pessoa que necessite de uma mãe, uma irmã, uma tia, mulheres que são o pilar central de muitas vidas alheias, que criam filhos para vê-los ir embora depois e que também vêem seus homens partirem, sem se permitir um queixume, porque têm outras urgências maiores com que se ocupar. Pareceu-me igual a tantas outras que conheci nos refeitórios populares, no hospital de meu tio Jaime, no vicariato, onde iam perguntar por seus desaparecidos, no necrotério, onde iam buscar seus mortos. Disse-lhe que se tinha arriscado muito ao ajudar-me, e ela sorriu. Então, eu soube que o coronel García e outros como ele têm seus dias contados, porque não tinham conseguido destruir o espírito de mulheres como aquela."
EPÍLOGO - A memória é frágil, e o transcurso de uma vida, muito breve, e tudo acontece tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos atos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente. Por isso, Clara escrevia em seus cadernos, para ver as coisas em sua dimensão real e driblar a sua péssima memória. Será para mim muito difícil vingar todos os que têm de ser vingados, porque minha vingança não seria senão outra parte do mesmo rito inexorável. Quero pensar que meu ofício é a vida e que minha missão não é prolongar o ódio, mas apenas encher estas páginas."
Imagem . The House of Spirits, de Billie August , EUA/Chile, 1993 Textos . The House of Spirits, de Isabel Allende

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1 Comments:

Anonymous ana said...

o carteiro e o poeta

11:58 AM

 

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