"Santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo." (Allen Ginsberg)

8.12.05

o anarquista

De maneira seca Carol me deu a notícia de que ele tinha morrido assassinado. Ela também sofria - eu advinhava. Abaixei o som da televisão, me afundei no sofá e pensei em como tudo se revelava distante e belo. Não me lembro de sequer um gesto vil da parte dele. Nenhuma ofensa. Nenhuma encaretação. Era bom, positivo e franco. Sobretudo sedutor. Ele era um sedutor das ninfas que enlouqueceram com o gosto de sua boca. Ele era um sedutor dos homens que meditaram ao som do seu silêncio. Morreu baleado pagando pelos seus erros. Pouco me importa se foram erros contra a lei. São erros e acertos que fazem a experiência de qualquer um. Se ele era um marginal? Sim, não fazia parte do mundo de vocês. Era forte e sincero mas não era rude nem convencional. Era um andarilho, um sonhador e um aventureiro. Quando bebia algo, sempre restavam algumas gotas enfeitando-lhe o buço. Sempre os dentes reluzindo num sorriso aberto, sempre as mochilas nas mãos e nas costas, a nuca queimada pelo sol, o sol iluminando o corpo e seus pelos e seus cabelos dourados, o suor a escorrer pela testa - ele o limpava constantemente com as costas das mãos. Muita luz. Muita paz. Assim eu me sentia ao lado dele. Tinha um contato profundo com a natureza, contato este que eu sei que nunca vou ter. Não. Ele não era um hipster. Ele, marcando em qualquer superficie pública a letra A composta de três riscos envolvidos por um círculo, era o anarquista de si mesmo. Sem moicano, sem maquilagem e sem Sex Pistols ele foi o anarquista de si mesmo e do mundo ao seu redor. E, anarquizando o cotidiano formado em torno de sua louca e nobre capoeira, enfeitou a sua própria vida e a vida de quem esteve ao seu lado de surpresa & coisas inesperadas. texto.matheus só em memória de rafael, amigo morto em meados deste ano.

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2 Comments:

Blogger Rah said...

a morte é sempre chocante, sempre marca.. sempre faz refletir..
beijo
Rah

11:36 PM

 
Blogger Márcia said...

sentimento de impotência esse diante da morte,horrível e inevitável.
bela lembrança,belo texto!!
lindo findi!
beijosssssssss

10:27 PM

 

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